Síria: inspetores da ONU chegam ao local de suposto ataque com armas químicas

Veículos da comitiva das Nações Unidas na Síria foram atingidos por disparosFranco-atiradores dispararam contra um veículo utilizado por investigadores de armas químicas da ONU, nesta segunda-feira, na Síria, a caminho do local de um suposto ataque com gás venenoso, disse um porta-voz da ONU.
– O primeiro veículo da Equipe de Investigação de Armas Químicas foi atingido deliberadamente várias vezes por atiradores não identificados na
zona de proteção – disse o porta-voz, acrescentando que o carro parou de funcionar e seria substituído por outro.
Ainda nesta manhã, o governo da Síria culpou os insurgentes pelo ataque contra a equipe da ONU, disse a televisão estatal, após a Organização das Nações Unidas ter informado que os inspetores foram alvo de disparos feitos por atiradores não identificados. Uma fonte do Ministério da Informação disse que os especialistas internacionais foram alvejados por “terroristas”, um termo normalmente usado pelo governo para descrever os rebeldes que tentam derrubar o presidente Bashar al-Assad, segundo a TV Síria.
Apesar dos ataques, os inspetores da ONU entraram em Mouadamiya, localidade a sudoeste de Damasco onde dezenas de pessoas foram mortas em um suposto ataque com gás venenoso na semana passada, segundo as Nações Unidas. O comboio de investigadores de armas químicas atravessou um bloqueio de rua mantido pela inteligência da Força Aérea da Síria, na entrada para o bairro muçulmano sunita que está sitiado por forças leais ao presidente Bashar al-Assad, disseram as fontes à agência inglesa de notícias Reuters.
Resposta contundente
Pela manhã, o governo dos Estados Unidos disse só tomaria medidas sobre a Síria em conjunto com a comunidade internacional e dentro de um quadro de legalidade em resposta aos supostos ataques de armas químicas nos arredores de Damasco, disse o secretário de Defesa dos EUA, Chuck Hagel. Hagel, falando a repórteres durante viagem à Indonésia, recusou-se a discutir as opções militares dos EUA que estão sendo consideradas pela Casa Branca, ou a dizer se acha provável uma resposta militar. Um alto funcionário dos EUA disse que Hagel pretende conversar com seus colegas britânico e francês para discutir a situação na Síria.
Na Rússia, por meio de nota oficial, o Ministério de Relações Exteriores afirmou, na véspera, que atribuir culpa antecipadamente pelo suposto ataque de armas químicas na Síria seria um “erro trágico”. “Nós recomendamos fortemente que aqueles, ao tentar impor sua opinião de especialistas à frente dos resultados de uma investigação da ONU (…) não cometam erros trágicos”, disse a chancelaria russa. Moscou advertiu os Estados Unidos pedindo que não repetissem na Síria “erros do passado”, dizendo que qualquer ação dos EUA não deve ignorar as Nações Unidas.
Já o Ministério das Relações Exteriores da Síria informou que permitiu acesso aos inspetores da ONU aos locais onde ocorreram os ataques com gás nervoso, na última quarta-feira nos arredores de Damasco, para que os inspetores tivessem a chance de desmentir as acusações da oposição de que as forças do governo teriam usado armas químicas contra civis, incluindo crianças. Ainda assim, Assad foi alvo de críticas.
– Neste momento, qualquer decisão tardia por parte do regime de Assad para conceder acesso à equipe da ONU seria considerada demasiado tardia para ser digna de crédito, inclusive porque a evidência disponível foi significativamente danificada como resultado de persistentes bombardeios e outras ações intencionais do regime nos últimos cinco dias. Com base no número relatado de vítimas, nos relatos de sintomas daqueles que foram mortos ou feridos, relatos de testemunhas e outros dados recolhidos por fontes abertas, pela inteligência dos EUA e por parceiros internacionais, há muito poucas dúvidas neste ponto de que uma arma química foi usada pelo regime sírio contra civis neste incidente – disse um funcionário da ONU à agência inglesa de notícias Reuters.
O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, disse, em comunicado, que a Síria prometeu garantir um cessar-fogo nos locais do subúrbio de Damasco.
Um ano atrás, Obama disse que o uso de armas químicas na guerra na Síria seria uma “linha vermelha” para os Estados Unidos. No entanto, Obama tem se mostrado relutante em intervir na Síria, e funcionários EUA ressaltam que ele ainda tem que tomar uma decisão sobre como responder. Parlamentares norte-americanos de ambos os partidos pediram uma resposta militar limitada, com mísseis de cruzeiro, por exemplo. Um democrata sênior, o senador Jack Reed, advertiu que qualquer movimento realizado por Washington não deve ser unilateral.
O senador Bob Corker, o principal republicano no Comitê de Relações Exteriores, disse que havia discutido o assunto com o governo na semana passada e acredita que Obama pedirá ao Congresso autorização para a intervenção uma vez que os parlamentares voltem do recesso em 9 de setembro.
– Acho que vamos responder de forma cirúrgica e espero que o presidente, assim que voltarmos para Washington, peça autorização do Congresso para fazer algo de uma forma muito cirúrgica e proporcional – disse a ele à rede norte-americana de TV Fox News.
A maioria dos norte-americanos se opõe fortemente à intervenção dos EUA na guerra civil da Síria e acreditam que Washington deve ficar fora do conflito, mesmo que sejam verdadeiros os relatos de que o governo do presidente sírio Bashar al-Assad usou armas químicas, segundo mostrou uma pesquisa Reuters/Ipsos. Cerca de 60% dos entrevistados na pesquisa disseram que os Estados Unidos não devem intervir, ou seja, Obama teria que fazer uma defesa convincente para o público americano em relação a qualquer ação que ele decidisse realizar.
O Irã, um aliado chave de Assad, disse que Washington não deve cruzar uma “linha vermelha” ao atacar a Síria, enquanto que o ministro de Informações da Síria disse que qualquer ação militar dos EUA iria “criar uma bola de fogo.”
Reunião bilateral
O presidente francês, François Hollande, conversou neste domingo sobre a Síria com seu homólogo norte-americano e disse que “tudo aponta para o regime em Damasco como autor” dos ataques químicos de 21 de agosto, anunciou o Palácio do Eliseu.
“O chefe de Estado condenou o uso de armas químicas na Síria e destacou que tudo aponta para assinalar o regime em Damasco como o autor destes ataques inaceitáveis”, informou a presidência francesa.
Segundo a Casa Branca, Obama e Hollande expressaram sua “profunda preocupação com a suposta utilização de armas químicas por parte do regime sírio contra civis nos arredores de Damasco, no dia 21 de agosto”. Os dois líderes “discutiram as possíveis respostas da comunidade internacional (…) e concordaram em permanecer em contato para proporcionar uma reação comum a esta agressão sem precedentes”, destacou a presidência francesa.
François Hollande já havia conversado neste domingo sobre o ataque químico com o primeiro-ministro britânico, David Cameron, e com o premiê australiano, Kevin Rudd.
Obama, e Cameron chegaram a prometer uma “resposta contundente” ao governo da Síria, caso seja comprovado que este tenha se utilizado de armas químicas na guerra civil que desola o país árabe há mais de dois anos. Os dois líderes conversaram por telefone durante 40 minutos na noite no sábado, segundo informou no dia seguinte a assessoria de Downing Street (residência oficial do premiê). O ministro de comunicação da Síria, pro sua vez, afirmou que, se os EUA tentarem invadir o país, eles criarão “uma bola de fogo em todo Oriente Médio”. Os dois políticos determinaram que “todas as opções” sobre a Síria sejam examinadas.
– Ambos estão gravemente preocupados com o ataque ocorrido em Damasco na quarta-feira e os sinais crescentes de que se tratou de um ataque com armamento químico realizado pelo regime sírio contra sua própria gente – disse o porta-voz do Executivo britânico.



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