Todos os seres humanos são cheios de contradições. O importante é entender a dialética do SER e TER e entender as contradições da realidade e agir em conseqüência.
O povo venezuelano será testemunho do antes, durante e depois de Chávez e cabe a ele decidir sobre seu próprio destino. Os que odiavam o presidente Chávez vão ter um dia consciência que ele lutou até com a morte com muita determinação, assim como, ele lutou para mudar a Venezuela. Quem sabe, o ódio vai se dissipar e as elites venezuelanas vão entender que governar para os pobres e pelos miseráveis não quer dizer dividir a sociedade.
Os ricos não necessitam de ajuda, a alta classe média, tampouco. O restante das categorias sociais precisa usufruir de serviços públicos de qualidade, para isto, os mais afortunados devem pagar mais impostos. É a solidariedade nacional que leva uma nação a crescer com inclusão social e progresso para todos. Este tipo de raciocínio não existe quando o fanatismo assume o lugar da racionalidade política.
Não podemos negar que o presidente Chávez teve um papel positivo na luta pela solidariedade entre os povos da América Latina, seu modo de provocar, por mais que às vezes fosse exagerado, levou há muitos presidentes sul-americanos a se posicionar sobre outro tipo de integração do continente.
Todavia, não é pelo fato de Chávez ter morrido que devemos endeusá-lo, o seu populismo, por exemplo, incomodava, assim, como seu lado militar, que deixava transparecer certo autoritarismo. O comandante parecia por vezes, assumir uma compreensão ambígua da democracia, com regras impostas à sua maneira pra preservar para si as rédeas dos poderes. O programa de educação popular utilizado por muitos mentores intelectuais do chavismo era dentro daquela velha concepção de “fazer a cabeça”, o que me parece que não era tão adaptado à formação da cidadania política. A educação popular no Brasil, por exemplo, foi e é uma metodologia que leva as pessoas a serem sujeitos de sua própria historia. A questão não é fazer a cabeça de ninguém, mas de fornecer elementos que levem a cada a construir seu próprio raciocínio, a ter capacidade de ter um senso critico.
Simon Bolívar já dizia: “Um povo ignorante é um instrumento cego de sua própria destruição”. A educação popular fornece instrumentos pedagógicos para que seja possível codificar e decodificar a realidade em que atuamos. A luta contra a exclusão começa quando o excluído vira sujeito-cidadão e acaba participando ativamente no processo coletivo de mudanças. As reformas não reformam quando os atores do desenvolvimento não estão preparados ao exercício da cidadania e do poder. Vale relembrar o que o filósofo, psicólogo Foucault dizia: “Todo lugar de exercício do poder é ao mesmo tempo um lugar de formação do saber”.
Mesmo que eu tenha meu senso crítico, quanto a esta questão, reconheço que muitos educadores venezuelanos fizeram um trabalho formidável de alfabetização nos “ranchitos”, nos bairros populares. Eles atuaram junto às pessoas de terceira idade criando universidades populares, eu tive o prazer de discutir com muitas mulheres que passaram a ter auto-estima, e, se sentir valorizadas e úteis nas comunidades em que viviam. Ao mesmo tempo, pude presenciar o dinamismo dado à valorização da cultura venezuelana, coisa que muitos ricos desprezavam preferindo a cultura americana.
Uma esquerda monolítica?
A esquerda venezuelana é também diversa, entretanto, ela aparecia mais como um bloco homogêneo, tendo em vista que o “chavismo” se tornou uma espécie de stalinismo eliminando todos que lhe faziam sombra, qualquer pensamento crítico era mau visto, qualquer discordância a certas ações do governo Chávez também. Muitos intelectuais de esquerda que queriam contribuir com o governo terminaram deixando de colaborar. Isto levou o Presidente Chávez a perder alguns aliados acadêmicos.
Outro sujeito polêmico: Com o presidente Chávez, a história da Venezuela ficou concentrada no herói de Simão Bolívar, o que dizia Chávez virou bíblia, e, ele escrevia a historia à sua maneira. Passando por construção e desconstrução da figura do herói, a propaganda política substitui os anais da historia. Os historiadores poderiam ter tido um papel mais importante para que o povo se aproprie da historia de um herói nacional sem os ranços do colonialismo.
Por exemplo, na historia diz que Simon Bolívar morreu de tuberculose, mas, o presidente Chávez afirmou que Simon Bolívar foi assassinado, fruto de uma conspiração boliviana, Simon Bolívar havia sido morto por um general colombiano. A afirmação de Chávez sobre o assassinato de Bolívar se dá no momento em que os dois países (Venezuela e Colômbia) atravessavam um fase seguida de conflitos. Isto não lhe tira o mérito de ter resgatado a luta de Bolívar pela integração da América do Sul.
O que descrevo aqui como elementos críticos em nada invalida minha homenagem ao comandante presidente Chávez. Este homem enfrentou o ódio e o racismo de uma elite que não foi digna da república bolivariana.
O que descrevo aqui como elementos críticos em nada invalida minha homenagem ao comandante presidente Chávez. Este homem enfrentou o ódio e o racismo de uma elite que não foi digna da república bolivariana.
O presidente Chávez se junta ao seu grande herói, Simon Bolívar. Na época de Bolívar, o sonho bolivariano de unidade política sul-americana chocou-se com os interesses das oligarquias locais e com a oposição da Inglaterra e dos Estados Unidos. Estes, não tinham nenhum interesse em ter em face deles países fortes e unidos. O presidente Chávez também travou uma luta contra as oligarquias locais, e uma oposição política que defendia mais os interesses dos Estados Unidos do que da Venezuela. Seus inimigos externos também não tinham interesse em ver uma América do Sul solidaria, unida na defesa da integração regional e dos interesses de seus povos em prol de outro desenvolvimento e pela preservação de seu patrimônio ecológico e cultural. Nisso temos que dar jus ao grande comandante e que ele repouse em paz.
Marilza de Melo Foucher é economista, jornalista e correspondente do Correio do Brasil, em Paris.

13:14
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Nenhuma resposta ao "Chávez lutou com determinação até contra a morte. Bom repouso comandante!"